Wednesday, September 27, 2006

Se lembra do Vitória Pub?
Do jogo que jogávamos, da fantasia que vestíamos? Passaram dez anos. Hoje notei-os como quem descobre preciosidades de família no sóton.
Percebo os retalhos de Hesse que poderíamos ter remendado. Percebo o quanto que toda aquela semiótica da faculdade nos modificou.
Quando o falecido Jim dizia que os rostos parecem feios quando vc está sozinho, nós estavamos juntos.
A gente não discutiu Bukowsk nem Leminsk nem Waclav Havel por que eu nao entendia....mas vc entendia.
Não me lembro do belo. Não sei, ainda, o que é conceito in design, mas ainda assim lembro bem do seu rosto.
Daquela útima despedida tenho um beijinho:respirou bem devagar, como é costume dos orientalistas, se reclinou sobre mim, gentilmente, e tocou o meu rosto. na face esquerda. Na parte clara da bochecha, próximo ao sulco naso-labial. Uma parte grande de seus lábios tocou uma pequena parte dos meus. no beijo vc abriu a boca um pouquinho, devagarinho. Alguma umidade. alguma textura de frio de outono. Hálito de chocolate e cachecol no pescoço. Rocei de propósito o rosto em sua mão, para senti-la, claro.
Disse que eu era belo. Confundiu-me. Enrolou o dedo no meu cabelo. Fiquei vibrante, rubro, tentado. Muito tentado. Mas um encanto impediu minha tentação de se tornar ousadia e recebia aquele beijo, despedida, tentação e ousadia, que me pegou no lugar certo, de boca fechada.
E agora a gente vai pensar que não existiu nada. Você deve trepar sem camisinha....eu trepo...Você deve chapar ouvindo The Doors...Eu chapo.
Voce deve torturar aquele cara com sua intimidade de mulher real...
Beijei a Cris naquela noite no Vitória. Tirei a calcinha dela. Te contei isso, eu acho...

Friday, September 15, 2006

A donzela que aguarda

Onde esta a serpente?
Onde está o shaolin ?
Por que não resisto a um pequeno corte?
Onde esta o maldito shaolin ?
Não quero mais ser três:
Serpente, shaolin e corte.
Não existe o que faça a dor passar.
Não existe não dor
So existe dor
Como um liquido
Que aos poucos preenche tudo
E sufoca
E morre o shaolin com um pequeno corte
E morre a serpente com um pequeno corte
E eu não resisto a um pequeno corte...
Fui serpente e deixei de ser. Os outros ainda veem serpente.
Fui shaolin e deixei de ser. Os outros ainda veem shaolin.
Fui corte. Os outros veem corte.
Não quero mais corte. Não quero mais liquidos.
Por favor...

Thursday, May 11, 2006

Ela é linda.
Como os raios de sol
que atravessam as árvores
numa manha de orvalho.
Me faz desejar palavras
e método.Me faz pensar em coresver formas.
Queria ser a árvore
Queria ser orvalho
Queria ser manhã.
Do alto,
Queria ser o pássaro
A atingir seu brilho,
A ave a se aproximar de Deus.
Posar em seu ventre,
nossa raiz,olhar longe,
e ve-la
brilhar.

Wednesday, August 03, 2005

o passado das nuvens

O senhor Shen olha para o ceu. Chove.
As gotinhas fazem tac, tac em seu rosto. Uma a uma.
Escorrem rapido. Escorrem devagar. Só escorrem.

Cada gota é um pensamento.

O passado de cada gota foi nuvem. Mas para o senho Shen, o passado não existe. Entao as nuvens não existiriam também. Mas elas existem. Se desfazem em gotas que escorrem e fazem com que ele pense nelas. Em cada uma delas. E ele sabe que o mundo precisa das nuvens e sabe que elas simplesmente chovem e se desfazem.

O senhor Shen entao aprendeu que as gotas que eram nuvem caem, escorrem pelo rosto e vao embora.

O senhor shen, então, olha para o céu. Chove. Mas ele sorri.

Thursday, July 07, 2005

voo

Minhas penas pesam.
Acho que por isso caí.
Tava alto demais.

A cabeça ta grande.
Não fica em cima do lugar certo.
Ta entre livros de agulhas e caminhos de energia
Cada vez menos no projeto das coisas.

Mas as penas não me deixam ficar quieto.
Ta foda.
Não arrumo posiçao ou conforto.
As penas machucam os outros.
Não que eu queira...
Ou queira mais....

Faço bico,
Cisco por ai a fora.
Volto e faço um ninho na cama.

Deixo as penas cairem.
Outros pegam.
Dizem que são belas, as penas.
Eu não gosto.

Não gosto de penas
Por que pesam
E não deixam voar.

Friday, May 27, 2005

Breve lembrança, amorfa, de uma manha de orvalho.

Existe um homem que toca o ceu e diz a palavra certa. Essa palavra muda sozinha e se descria e depois se recria de novo.
Ela vem de um lugar distante dentro dele.
Vem de seu nariz azul alinhado com o horizonte. Vem, quem sabe das luzes a brilhar na pista.
É ouvida no mundo dos espiritos, um lugar melhor.
Este homem veio de um lugar melhor. Onde tudo é verdadeiro, e existem livros, muitos e bons e sempre e tantos quantos se precisem.
A palavra certa é dita as vezes e todos cantam e dançam ao seu redor. Ela , nas noites de festa, em geral na primavera, é como uma fogueira: aquece nossa respiração e nossa mente e faz com que vislumbremos aquele mundo melhor. No mundo dos espiritos, tambem são vistos lugares melhores e eles tambem dançam e cantam.
Um homem velho, a muito tempo atras deu seu coraçao a esta palavra e ela em troca lhe ofereceu um pedaço de vidro. Ele plantou o vidro no chao e este cresceu e virou um grande palacio. No palacio, todos viviam e cresciam e eram bons, e por isso felizes.
O palacio se chama Céu de Cristal e pode ser visto, por breves momentos, proximo a lua, se bem mirada, em manhas de orvalho.
Pelo receio de fazer com que o palacio se descrie, aquele homem do topo da pagina quase nunca pronuncia a palavra.
E pelo mesmo motivo, este texto não existe.
Pelo mesmo motivo, eu nunca o escrevi.


Escrito em silencio, ótima companhia, que uma amiga faz até que eu não possa ouvir mais nada.

Friday, April 29, 2005

Palavras que devem ser ditas a noite.

Existem palavras que devem ser ditas durante o dia. Outras que devem ser ditas durante a noite.
As palavras partem das bibliotecas dos livros infinitos e vagam pelo mundo até encontrarem alguém que lhes de nome e autoridade. Os antigos sabiam. Proibiam o empregos de algumas sob pena de mau augúrio e quase nunca as pronunciavam.
Verbalizar em vão é pecado pois o verbo mostra poder do todo e da criação e se fazer dele no momento errado faz com que o que foi criado se descrie, pois a palavra que advem do dia, é, e representa o dia e deve ser dita durante o dia e a palavra que advem da noite, é, e representa a noite e devem ser dita durante a noite.
Muitas palavras que nunca foram empregadas morrem. Ao morrer seus espíritos voltam para a biblioteca, onde ficam registrados seus nomes e tempo de vida e são armazenadas para todo o sempre.
Algumas palavras são presas e condenadas, num geral pelo crime de ruindade, e nunca lhes é permitido sair da biblioteca. Poucas dessas conseguiram fugir. E se multiplicaram, e fizeram com que dissessem seus nomes. Passaram assim a existir. E por pura ruindade fazer com que se dissessem palavras durante o dia, que só poderiam ser ditas a noite.